Quando uma quantidade avassaladora de informações começa a conflitar com meu sistema de resolução de problemas eu automaticamente recorro ao meu módulo de segurança: o bom senso.
O bom senso diz (ou pelo menos deveria dizer) que determinadas ações devem ser aceitas em determinados contextos. Este contexto pode variar de acordo com uma justificativa que forneça subsídios para uma nova ação. Caso contrário você caiu na hipocrisia, ou seja, você não tem os pré-requisitos pra ser meu melhor amigo.
Você deve tomar sol para estimular a produção de melanina que é um pigmento naturalmente protetor da pele. Entretanto você não deve tomar sol das 12:00 às 14:00.
Por que diabos?
Por que seu sistema imunológico pode entender o bombardeio de raios solares como um ataque e reagir a ele de forma inadequada... não queira saber como.
Você tem uma justificativa lógica para não tomar sol das 12:00 às 14:00? Para mim sim, uma vez que você coloca sua saúde em risco. Para outras pessoas não, pelos mais variados motivos (por que isso é conversa mole, nunca foi cientificamente comprovado e tudo mais).
Entretanto, quanto o papo está no nível fisiológico fica fácil estabelecer um diálogo. E quando o papo evolui pro nível moral?
Aí fodeu...
Aí eu escolho bem meus amigos...
Desde as aulas da tia Ruth da segunda série você aprendeu, por bem ou por mal, que não pode agredir o coleguinha. Então a regra é: bater é errado.
O tempo passa e a gente encontra algo como isso:
Ótimo. Várias pessoas assistem (como era de se esperar) e se manifestam com relação a isso. A esmagadora maioria delas se coloca inteiramente a favor do rapazinho que reagiu ao bullying (como também era de se esperar) cujo nome é Casey Heynes
O que Casey fez foi apresentar uma ação considerada inadequada perante outra situação considerada inadequada. O garoto não teria se tornado um mártir não fosse pelo bullying.
Então convenhamos: quem é o herói e quem é o vilão dessa história?
So você já tem uma resposta, vá dormir. Você está perdendo seu tempo lendo este texto.
Agir da forma como o garoto agiu é um recurso do qual a sociedade dispõe para burlar sistemas que não funcionam, como por exemplo o sistema de ensino.
O garoto sofre? Sim.
O garoto tem motivos suficientes para pensar em suicídio? Sim.
O garoto merece uma vida melhor? Sim.
O garoto vai conseguir uma vida melhor fazendo isso várias vezes? Não.
Eu ainda me pergunto como foi o primeiro dia no qual o garoto pisou no colégio depois do evento.
Todo mundo divinizou a figura do menino sem pensar brevemente na consequência disso.
Isso resolve o problema do bullying?
NÃO!!!
Isso apenas cria outro problema: se todas as pessoas que sofrem bullying resolverem agir dessa forma, os alunos precisarão ter aula em gaiolas.
Estas outras crianças serão consideradas mártirs?
DUVIDO MUITO!
Casey vai ficar conhecido por muito tempo como o jovem que reagiu ao bullying, mas as crianças no mundo inteiro vão continuar olhando o vídeo... e só.
Por isso os mártirs são tão poucos: eles realizam feitos que o restante da população tem medo de realizar por que podem acabar esquartejados com a cabeça erguida em um poste.
Se for assim, eu posso sair por aí assaltando lojas como protesto à pobreza que o estado me proporciona.
Ops... já fazem isso ha muito tempo... então acho que eu não estou sofrendo o bastante.
1 comentários:
Bom texto, Arthur. Gostei de saber seu ponto de vista a respeito dessa história. Vale lembrar que, em tempos de internet com proliferação de vídeos que serão vistos por milhões de pessoas em questão de horas, as consequências e a repercussão desta reação ao bullying não estarão restritas somente à escola de Casey, no dia seguinte. A coisa ficou bem maior...
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