sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Um trecho...

(...) Com uma dificuldade absurda, ele abriu os olhos e os manteve fixos olhando para o teto do lugar. Não suportava mantê-los abertos por uma fração de segundo, nem ao menos na meia luz do quarto. Na parede, sombras e penumbras de folhas das araucárias de fora do quarto se moviam como pessoas apressadas. Ao longe, ouvia barulhos de passos e conversas.

Ao tentar mover os dedos das mãos, sentiu os ossos, há muito assentados nos músculos, procurando espaço para se mexer. Não encontaram. As costelas estalaram com uma respiração mais profunda guardada há dias e a dor se espalhou por todo o torax. Sua coluna arqueou, suspendendo o corpo por um segundo, mas logo se assentou. Era como se estivesse amarrado à cama quente.

Percebeu um tecido leve que tateava seu corpo e algo que o impedia de cerrar o pulso direito por completo. Algo macio e pesado. Pelo menos pesado o suficiente para que não conseguisse suspender para ver. Ao se permitir uma segunda tentativa de angústia, concentrou suas forças no ombro e no pulso para tentar suspendê-lo mas uma vez. Sentiu um suspiro forte e repentino muito próximo ao seu ouvido e, o que antes tomava sua mão direita, se soltou. Era a mão de Primavera.

Ele, então, ouviu foi um telefone sendo tirado do gancho e uma voz afobada que dizia:

- Preciso de um enfermeiro imediatamente! O paciente do quarto 203 acordou.

Em seguida, fez-se um estalo na parede do quarto. Era uma manifestação impiedosa da delicadeza de Primavera em pulsos de desespero a colocar o telefone no gancho. Seus ouvidos doeram com o estalo, mas a calmaria devastou seu espírito ao sentir o perfume madeirado de perto e os cabelos negros ondulados acariciando-lhe a barba.

As mãos pequenas dela percorreram seu rosto e ergueram o cabelo de sua testa como se quisesse sentir sua temperatura. As mãos afobadas percorriam suas bochechas, seu pescoço e seu peito. Os olhos verdes preocupados penetravam fundo nos dele à busca de algo que ficara escondido por sabe-se-lá-quanto tempo. Viu que os labios se retorciam angustiados e as lágrimas começavam a despontar dos olhos dela. Não sabia há quanto tempo haviam ficado escondidas, mas não tinha forças para perguntar.

Em uma terceira tentativa de suspender o braço, conseguiu alcançar-lhe o rosto com as costas da mão. O estado de desespero de Primavera não foi o suficiente para tomar sua calma. Manteve os olhos fixos na forma de seu rosto pardo e nas ondulações dos seus cabelos sem conseguir estabelecer uma ordem para as perguntas que sentia necessidade de fazer. Ao observar a primeira lágrima escorrendo no rosto dela, encheu os pulmões com dificuldade e perguntou:

- Quem é você? (...)

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