sábado, 14 de novembro de 2009

Vadiagem

Eu já acreditei que a lua mudava de tamanho, que o peixe-boi era um peixe e que orgasmos multiplos existiam.
Hoje eu não sou triste por ter sido enganado.
Só acho que poderiam ter me poupado do trabalho de ter que descobrir tudo isso sozinho.

Acontece que o caminho mais curto tem altas chances de ter acidentes
E os processos mais rápidos deixam alguém insatisfeito... normalmente quem está por baixo

Eu estou preocupado exatamente com o que?

Pra começo de conversa eu estou perfeitamente convencido de que é possível passar uma vida toda feliz tampando o sol com a peneira
Assim um ser humano se torna cada vez mais competente ao desenvolver estratégias para lidar com suas manias, compulsões e fobias

Se trabalha mais para se comprar mais remédios...
Psicotrópicos...
Bonecas infláveis e vibradores...

Uma vida de pequenas alegrias são cócegas na sabedoria das probabilidades
Você contribui para que fossem necessários mais recursos para espantar os demônios da hipocrisia da alma da natureza

A diferença entre gozar e ocupar o cargo administrativo do seu melhor amigo é que, ao ocupar o cargo dele você não corre o risco de engravidar ninguém... só a mulher dele...

O que eu estou tentando dizer é que alcançar o ponto G da natureza independe de ter sido bom para você ou não.

Ter milhares de amigos no myspace não afeta a probabilidade de você se tornar particulas das fezes dos homens que vão tornar a lua um lugar habitável (independentemente de ela mudar de tamanho ou não).

A única forma de nos tornarmos eternos é garantir que vamos ter tempo o suficiente para desenvolver recursos para viajar no tempo e ter certeza que o combustível não vai acabar no meio do caminho...

É mais ou menos como para de usar a camisinha:

- Garantindo que vamos chegar até o final, podemos não conseguir contar histórias eternamente mas conseguiremos que alguem conte por nós.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Diário de um narcisista que foi ao supermercado

Se perguntarem, diga que volto

Não tão logo que valha a pena esperar
Não tão demorado que não valha a pena voltar

Se perguntarem, diga que me importo

Não tanto que comece uma revolução
Não tão pouco que ignore uma razão

Se perguntarem, diga que sinto

Não tanto que insista em chorar
Não tão pouco que me proiba amar

Se perguntarem, diga que sei

Não tanto que cative ouvidos curiosos
Não tão pouco que dispense pensamentos teimosos

Se perguntarem diga que termino

Não tão logo que dispense a vontade de ler
Não tão demorado que dispense a vontade de entender

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Entre a morte e outra vida

Peço licensa aos vivos para falar um pouco da morte. Hoje em dia não se fala mais dela. Ela é sempre mal vista e, quando chega, é mal recebida. É sempre um grande tabu falar sobre morte ao lado de um amigo que perdeu um ente querido. Considerar a possibilidade de morte sempre está fora de cogitação: "Durante a viagem, é possivel que vocês errem o caminho ou terminem em baixo de um carreto, amassados como panquecas". A morte só nos surpreende tanto por que nunca contamos com ela. Algumas vezes nossos instintos de preservação da espécie nos sobem à cabeça. Esquecemos que as pessoas morrem e sempre nos surpreendemos quando acontece. A igreja mascára a morte com inúmeros eufemismos e as empresas funerárias dizem não desejar ter que desempenhar esse serviço. Nada mais justo do que considerar a morte como um dos processos da vida. Sabe quem deve ter medo da morte? Aquele que não consegue superá-la. Sabe como é possível superar a morte? Deixando alguma coisa para quem vive. Não estou falando de relógios, jóias, coleções... Estou falando de idéias que não dêem aos seres humanos a ilusão de que eles são divinos e que não forneçam condições para que se matem por causa de desavenças ideologicas. Por que uma nova vida não compensa uma nova morte. Mas uma morte nem sempre acaba com uma vida.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Uma virtude virtual?

Posso parecer muito retrógrado, caipira, e autorizo ser rotulado com qualquer adjetivo que expresse "falta de competência em acompanhar a evolução humana", mas estamos passando um pouco dos limites.

Eu passaria horas escrevendo sobre as sites de relacionamento: fui informado que processos seletivos de grandes corporações levam em consideração "Em qual(is) rede(s) de relacionamento você tem conta(s)"

Mas, como eu não vivo em função de levar casos específicos em consideração, gostaria de desabafar sobre uma palavra que tem me tomado o sono.

"Virtual"

Que diabos significa isso?

Se olhar no dicionário, não existe um consenso sobre sua definição, mas dois elementos estão sempre presentes:

1) A ausencia do real
2) A definição a partir do conceito de "interação"

Surpresa? Talvez não.

Eu odeio metáforas, mas elas estão em alta no mercado (os próprios cientistas adoram usa-las) então vamos a elas:

Estamos imersos em uma névoa branca e alcoólica que chamamos de mundo virtual.
Sua brancura nos impede de ver o real a um palmo do nariz
Seu teor alcóolico nos embriaga e favorece exponencialmente nossas relações sociais.

Estabelecemos uma realidade paralela que tem uma intenção muito explícita: romper as barreiras que nós mesmos criamos.

Contraditório, penso eu.

Por um lado você cerca sua casa de muros e, por outro, abre seus dados bancários para um sistema cego capaz de movimentar dinheiro pela internet.

Do que exatamente nós devemos ter medo?

Hoje temos 99,7% das crianças nas escolas e pelo menos 60% destes estão se formando analfabetos funcionais. Isso inclui aqueles que não receberam instrução suficiente para aplicar a leitura às suas necessidades diárias mas NÃO inclui os idiotas que acham que uma "senha de 8 dígitos" resolve todos os seus problemas.

Olhando por outras lentes, eu não sou hipócrita de desconsiderar completamente o avanço que a realidade virtual favoreceu.

Mas eu ainda tenho minhas dúvidas: imagine que só tenha sido desenvolvido um remédio capaz de curar minha dor de cabeça, mas esse remédio traz espasmos, convulsões e vômitos constantes.

"Nossa Arthur, que exagero!"

O mundo virtual ameniza muitas das nossas dores de cabeça mas ainda não temos certeza dos sintomas.

Hoje, 80% dos meus arquivos são virtuais. Sem computador, nada feito.

Se eu entrar em um coma hoje e acordar daqui 10 anos, é provavel que a forma de armazenamento seja completamente diferente e todas as USB's tenham desaparecido do mercado. E aí? Como eu vou recuperar toda minha informação armazenada em HD's? Alguem vai tomar conta dela para mim por 10 anos?

Sejamos razoáveis: Somos frágeis. Estamos elevando nossa fragilidade cada vez mais à superfície.

Contamos apenas com o planejado porque é impossível considerar todas as possibilidades, mas o problema é um pouco mais em baixo: achamos que somos invencíveis.

Não é para menos: o primeiro computador do mundo tem 60 anos. A internet, da forma como conhecemos hoje, está completando 21 anos (equivalente à minha idade). A comunicação virtual é uma pequena adolescente que ainda está um pouco longe de entrar na fase adulta.

Dê um pouco de tempo à causa e em breve teremos de escolher entre continuar "evoluindo" da forma como estamos ou diminuirmos o passo para conseguirmos brindar com grandes amizades.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O Olhar

O que define o olhar?

O precorrente de uma atenção audaciosa que não requer flores ou canções.

Uma invasão de privacidade austera que capta humores e lacunas.

A publicaçao de uma intimidade literária não léxica.

Uma carícia de luzes e reflexos.

Uma justificativa para o silêncio que preenche o intervalo entre falas confusas.

Uma ponte entre uma mente inquieta e uma realidade de olhos alheios.

Mãos que despem vagarosamente a inibiçao da cumplicidade.
Agarram pensamentos pelos cabelos e os toma o folego.
Jogam a memória contra a parede e a torna incapaz de lembrar as palavras que se queria usar.
Faz com que os poros do encanto exalem o aroma natural de tantas fugas vindas de promessas não cumpridas enquanto se aguardam olhares de quem nunca conseguiu se dar por vencido.

Quando os olhos se encantam.

E descansam.

E se olham como se uma nova realidade viesse à tona.

Não uma realidade de amores mal acabados

Mas uma realidade de olhares mal aproveitados.

domingo, 2 de agosto de 2009

Sobre as horas e o tempo

Para onde foram os risos e os aplausos?

Para onde foram os olhos curiosos?
Para onde olham?
O que vêem se nada dizem?

Para onde foi o canto do uirapuru?
O que dizia quando pouco ouvia?

Para onde foram os homens de guerra que buscavam a paz?

Para onde foram os magos, os parvos e os altos clementes?

Para onde foram os oradores, os arcos, Eros e Minervas?
Por que foram para tão longe se ninguem os vê?

Para onde foram os braços, os gestos, murmurios e as rosas?
Por que morrem?
Por que vivem?
Por que não respondem?

Por que?...

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Avante, afundo e acaso

Que infinito é esse limitado pela subjetividade?

De onde vem tamanha grandeza?

Nessa briga, eu guardo foças para contar histórias.

Não só de amores que vivi mas dos que ainda vou viver.

Não há tempo que vete a probabilidade de eu ser feliz.

Se ela existe, é com ela que vou contar.

Com a harmonia enfeitada pela doce voz.

Com as flores enfeitadas pelos longos cabelos.

Conto com a queda dos pilares que construi na condição de construir outros.

Por que eu não tenho culpa de querer ser feliz.

Mas tenho medo de sê-lo e não saber se vivo essa realidade que construi.